
“Escute-as, as crianças da noite. Que doce música elas fazem…”
Desde a pré-história, quando o homem primitivo poderia ser devorado a qualquer momento por um tigre dentes-de-sabre, o ser humano tem razão para temer. Com base nisso, cientes de que o medo é uma das mais poderosas emoções, diversos artistas passaram a inventar histórias assustadoras, transmitidas de diversas maneiras.
A literatura explorou o horror com propriedade. “Frankenstein, o Prometeu Pós-Moderno” de Mary Shelley, “Drácula” de Bram Stoker e “O Médico e o Monstro” de Robert Louis Stevenson, foram contos que, ao serem publicados durante o século XIX, perturbaram os leitores e inauguraram novos gêneros literários.
Então o cinema surgiu, no final deste mesmo século. Aos poucos, quando este passou a desenvolver-se como forma narrativa, os cineastas descobriram o potencial para causar medo. Assistir a um filme é algo semelhante a sonhar: entramos numa sala escura, perdemos a conexão com o mundo exterior e passamos a ver imagens impossíveis de presenciar na realidade. E se podemos sonhar no cinema, podemos também ter pesadelos. Por isso, a sétima arte mostrou-se uma mídia ideal para criar imagens e histórias assustadoras, explorando os medos inconscientes da plateia.
Esta nova coluna do Cine Splendor, denominada A Hora do Espanto, vai discutir o cinema do medo, mas para discutir algo, primeiro é preciso conhecer. Portanto, vamos agora a uma breve história sobre o cinema de horror…
Os Primórdios
O cinema de horror nasceu com o expressionismo alemão, movimento artístico que enfatizava a desconstrução da realidade e explorava formas geométricas abruptas e distorcidas. Os alemães produziram os primeiros filmes de terror do cinema mudo. “O Gabinete do Dr. Caligari” (1919), “O Golem” (1920) e“Nosferatu” (1922) trouxeram para as telas monstros e histórias baseadas em lendas, com cenários grandiosos e inclinados, reflexos das mentes perturbadas dos seus personagens. “Nosferatu” foi uma adaptação não-oficial de “Drácula”, de Bram Stoker, e é considerado o primeiro filme de vampiros da história da sétima arte.
Outros filmes de destaque do período também buscaram inspiração em obras literárias: “O Médico e o Monstro” (1920), “O Corcunda de Notre Dame” (1923) e “O Fantasma da Ópera” (1925).
O horror se torna Universal
Quando o cinema começou a falar, o terror acompanhou. Teve início o primeiro grande ciclo do gênero, o dos monstros do estúdio americano Universal. “Drácula” (1931), de Tod Browning, foi o primeiro deles, e o conde, com interpretação marcante de Bela Lugosi, tornou-se o padrão para os futuros vampiros do cinema.
Pouco depois veio “Frankenstein” (1931) de James Whale, que revelou outro ator para sempre associado ao gênero: Boris Karloff, intérprete do monstro. Karloff emendou com “A Múmia” (1932), e ambos os filmes tiveram, para a época, efeitos de maquiagem criativos (cortesia do lendário Jack Pierce).
James Whale foi ainda responsável por “O Homem Invisível” (1933), baseado no livro de H. G. Wells e marco dos efeitos especiais; enquanto Tod Browning voltou para a Inglaterra e realizou “Monstros” (1932), reputado longa sobre aberrações de circo. O filme causou tanta polêmica que praticamente afundou a carreira do diretor – um dos primeiros casos de grande comoção popular causada por um filme de horror. Posteriormente, o catálogo de monstros da Universal se completou com “O Lobisomem” (1941) e “O Monstro da Lagoa Negra” (1954).
É interessante notar que o início do ciclo da Universal, e seu sucesso comercial, coincidem com o período da Grande Depressão nos Estados Unidos, causada pela quebra da bolsa de valores em 1929. As pessoas, em busca de uma fuga da triste realidade, preferiam encarar vampiros e monstros nos cinemas. Isso também serve para expor uma característica do gênero: o filme de terror nunca desaparece realmente, mas em determinadas épocas ele se torna mais forte, especialmente quando há problemas econômicos, guerras e conflitos sociais. Os filmes refletem as ansiedades da população, e ficam mais potentes em tempos de dificuldades.
O Pós-Guerra
A década de 40 foi uma exceção, contudo. Observou-se nesse período uma esfriada no gênero – apesar do lançamento de algumas experiências interessantes, como os trabalhos sugestivos de Val Lewton, dentre os quais o mais famoso é “Sangue de Pantera” (1942). Os horrores da Segunda Guerra Mundial foram poderosos demais, e nada que os cineastas criassem poderia superar os campos de concentração e a bomba atômica.
O pavor da aniquilação nuclear e a guerra fria, porém, promoveriam o retorno do gênero na década seguinte, com os filmes de monstros gigantes. “O Mundo em Perigo” (1954), com suas enormes formigas, marcou o cinema norte-americano enquanto “Godzilla” (1954), e suas sequências, destruíam o Japão. Neste mesmo período, a paranoia da invasão alienígena atingiu seu ápice com “Vampiros de Almas” (1956), refilmado diversas vezes.
Próximo ao final da década de 50, a produtora inglesa Hammer obteve grande sucesso com novas versões dos monstros clássicos da Universal. “A Maldição de Frankenstein” (1957) e “O Vampiro da Noite”(1958) trouxeram os personagens de volta à vida, desta vez em cores, com um pouco mais de sangue e sensualidade, tornando os nomes dos atores Peter Cushing e Christopher Lee eternamente associados ao terror.
A década de 60
Nos anos 60, Alfred Hitchcock revolucionou o gênero, trazendo o terror para perto do público com seu clássico “Psicose” (1960). O mal não mais precisava vir do castelo gótico europeu, ele podia estar nas pequenas cidadezinhas americanas, escondido sob a aparência de normalidade. A prova disso? Norman Bates, o protagonista deste clássico, tornou-se o mais famoso maníaco do cinema.
Ainda nesta década, fantasmas aterrorizaram em dois clássicos da sugestão: “Os Inocentes” (1961), deJack Clayton, e “Desafio do Além” (1963), de Robert Wise. Junto a ele, o controverso “A Tortura do Medo” (1960) explorou a relação entre o cinema e o terror, e foi tão provocativo que um crítico pediu ao diretor Michael Powell que jogasse a produção no esgoto.
Destacaram-se neste momento Hitchcock, inaugurando o subgênero “natureza se rebela” com “Os Pássaros” (1963); Roman Polanski realizou suas experiências de terror psicológico com “Repulsa ao Sexo” (1965), estrelado pela jovem Catherine Deneuve, e “O Bebê de Rosemary” (1968), com Mia Farrow;Mario Bava deu o pontapé inicial no horror italiano; e George Romero promoveu um terremoto no gênero, de forma tão intensa quanto “Psicose”, com seu primeiro longa, “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), inaugurando o moderno filme de zumbi.
Os Anos 70 e 80
A crise dos estúdios norte-americanos e o florescimento do mercado independente levaram a uma nova safra de potentes filmes de terror. Nessa época, também, todos assistiam chocados à Guerra do Vietnã, conflitos em diversas partes do mundo e reformas sociais. Esses eventos, sem dúvida, serviram de matéria-prima para os cineastas de terror, conscientemente ou não. “O Massacre da Serra Elétrica” (1974), por exemplo, parece ter sido especialmente influenciado pelos tumultos da época. O grupo de jovens que retorna à cidadezinha onde cresceram e encontram apenas psicopatas canibais soa como um reflexo dos Estados Unidos de então – e aquele país ingênuo de outrora não existia mais. A produção de baixo orçamento chocou as plateias e pavimentou o caminho para a onda dos filmes de assassinos da década seguinte, osslasher films.
Deste cenário independente vieram nomes como David Cronenberg, Wes Craven e John Carpenter.Cronenberg criou sua própria mistura de horror/ficção no Canadá, enfocando o corpo e suas transformações;Craven fez os polêmicos “Aniversário Macabro” (1972) e “Quadrilha de Sádicos” (1977); e Carpenterlançou “Halloween – A Noite do Terror” (1978), trazendo para as telas o assassino Michael Myers. Além deles, a década viu também o segundo filme de zumbis de George Romero, o revolucionário e satírico“Zombie – O Despertar dos Mortos” (1978), que elevou o padrão de sanguinolência do gênero e demonstrou o quanto esse tipo de cinema poderia ser provocador no seu retrato de uma sociedade.
Os grandes estúdios se recuperaram e também investiram no horror. “O Exorcista” (1973) foi um grande sucesso, o primeiro do gênero a ser indicado para o Oscar de Melhor Filme (ganhou o de roteiro adaptado). Foi seguido por “A Profecia” (1976), outro longa com temática demoníaca.
O jovem Steven Spielberg também colaborou com o gênero, fazendo o mundo inteiro temer entrar no mar com seu “Tubarão” (1975); e mais tarde, outro jovem talento, Ridley Scott, usou a obra como inspiração para seu clássico “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), ainda hoje o melhor exemplar a unir os gêneros desprezados do cinema – o terror e a ficção científica. “Alien” também foi revolucionário por ser o primeiro a ter uma mulher como heroína.
Na Europa, os italianos descobriam os psicopatas com o subgênero do giallo, do qual Dario Argento tornou-se o maior expoente. Mais tarde, Lucio Fulci e Ruggero Deodato fizeram história: o primeiro, com seus filmes de zumbi, o segundo com o falso documentário “Cannibal Holocaust” (1980), que muitos pensaram tratar-se de uma filmagem real.
Chegam os anos 80, e a trupe dos anos 70 continua a fazer filmes. John Carpenter teve, em “O Enigma do Outro Mundo” (1982), seu primeiro trabalho para um grande estúdio – fracasso no lançamento, o filme hoje é considerado um clássico; e Wes Craven deu início à popular série “A Hora do Pesadelo”, criando o vilão dos sonhos Freddy Krueger. Outro ícone do gênero, o assassino Jason Voorhees, da série “Sexta-Feira 13”, marcou a década com suas matanças de adolescentes, divindo espaço com Sam Raimi, um jovem com poucos recursos e muita criatividade, que chocou plateias com “The Evil Dead – A Morte do Demônio” (1982).
E claro, não se pode esquecer as adaptações para o cinema do mais bem sucedido escritor de terror de todos os tempos, Stephen King. Elas começaram com “Carrie, A Estranha” (1976) e prosseguem até hoje. Já renderam muitos bons filmes e pelo menos outro clássico indiscutível do gênero: “O Iluminado”(1980) de Stanley Kubrick. “Nada mais de sugestão” parecia ser a tônica da época.
Os últimos 20 anos
Ao contrário das tumultuadas décadas de 70 e 80, os anos 90 foram tempos de prosperidade nos Estados Unidos, de modo que poucos filmes de terror se destacaram. Além disso, o público cansou de ver as intermináveis continuações de “Halloween”, “Sexta-Feira 13” e “A Hora do Pesadelo”, o que também ajuda a explicar o desgaste do gênero. Nessa época, os poucos exemplares a fazer sucesso brincavam com a metalinguagem, homenageando e ao mesmo tempo fazendo piada com os títulos do passado. Foi o caso emblemático de “Pânico” (1996) de Wes Craven, um grande sucesso que rendeu suas próprias sequências.
Do cinema norte-americano do período ainda merecem destaque os sucessos de “Entrevista com o Vampiro” (1994), baseado no livro de sucesso de Anne Rice e estrelado pela realeza de Hollywood (os atores Tom Cruise e Brad Pitt); bem como novas versões super produzidas de “Drácula de Bram Stoker”(1992), dirigida por Francis Ford Coppola, e “Frankenstein de Mary Shelley” (1994), por Kenneth Branagh; sem esquecer de “O Silêncio dos Inocentes” (1991), vencedor do Oscar – honra geralmente não reservada a filmes com assassinos em série e canibalismo.
No Japão desse período os filmes exploraram o medo da tecnologia, do qual “Ringu – O Chamado” (1998) foi o exemplar mais famoso – tanto que, poucos anos depois, foi refilmado nos EUA como “O Chamado”(2002). No México, o cineasta Guillermo Del Toro despontou com seu conto de vampiros “Cronos” (1993), partindo depois para a América, e o diretor de origem indiana M. Night Shyamalan conquistou enorme sucesso de público e crítica com “O Sexto Sentido” (1999), suspense com toques sobrenaturais que arrebatou inclusive indicações ao Oscar.
Nos anos 2000, iniciou-se a onda das refilmagens, anunciada no final dos anos 90 quando Gus Van Sant“cometeu” o seu remake quadro-a-quadro de “Psicose” (1998). Como visto, as refilmagens foram constantes na história do terror, mas a indústria do período, em crise de criatividade, privilegiou as novas versões de antigos sucessos sobre trabalhos originais. Os EUA então viram sua hegemonia no terror diminuir quando outros países passaram a produzir obras mais instigantes. Da Espanha, vieram “Os Outros” (2001), “O Orfanato” (2007) e “[REC]” (2007). Os ingleses revitalizaram a figura do zumbi com“Extermínio” (2002), e impressionaram bastante em “Abismo do Medo” (2005). A Suécia produziu o melhor filme de vampiros dos últimos anos, “Deixe Ela Entrar” (2008), a Austrália lançou o inquietante“Wolf Creek – Viagem ao Inferno” (2005), e a Coréia do Sul surgiu com o original filme de monstro “O Hospedeiro” (2006).
Os eventos pós-11 de setembro nos EUA refletiram no cinema de terror na forma do subgênero torture porn. Eram filmes que procuravam extrair medo e tensão através da tortura dos personagens. Foram os casos de“O Albergue” (2005) e da série “Jogos Mortais”, bem-sucedidos financeiramente, mas considerados reprováveis por vários setores da sociedade, deixando claro mais uma vez o poder do gênero em mexer com os sentimentos das plateias.
Os falsos documentários também fizeram sucesso. “A Bruxa de Blair” (1999) foi o pioneiro, ainda nos anos 90, pegando a ideia de “Cannibal Holocaust” e apostando na sugestão (novamente) em vez do horror explícito, se tornando na época o filme mais rentável da história do cinema. Seu herdeiro atualmente é“Atividade Paranormal” (2007), que lhe roubou o posto e inspirou suas próprias sequências.
Por que embarcar no trem-fantasma?
Vimos, neste breve histórico, como o cinema de terror está atrelado às preocupações da sociedade – sociedade esta que, muitas vezes, comparece em massa para assisti-los. Isso imediatamente levanta a pergunta: por que tanta gente gosta de filmes assustadores? É uma pergunta válida, ainda mais quando já existem muitos horrores reais no mundo. Por que tanta gente paga ingresso de cinema para se apavorar com uma história fictícia, quando já há muito a temer na realidade em que vivemos?
O escritor Stephen King, já mencionado, publicou no começo da década de 80 um livro chamado “Dança Macabra”. Em tom de bate-papo com o leitor, como numa mesa de bar, ele discorre sobre seu interesse pelo terror e sobre as várias mídias onde se pode explorá-lo: a literatura, o rádio, a TV e o cinema.
É uma leitura fascinante, da qual destaca-se um trecho: “(…) nós inventamos horrores para nos ajudar a suportar os horrores verdadeiros. Contando com a infinita criatividade do ser humano, nos apoderamos dos elementos mais polêmicos e destrutivos e tentamos transformá-los em ferramentas – para desmantelar esses mesmos elementos”.
O filme de terror serve como catarse, para extravasar aqueles sentimentos sombrios que possuímos dentro de nós. Esses sentimentos vez ou outra vêm à tona, e precisam ser expressos de alguma forma. O cinema é uma forma segura de extravasá-los. De novo, King afirma: “Assistir a um filme de terror agressivo é como levantar um alçapão no cérebro civilizado e jogar uma cesta de carne crua aos crocodilos famintos nadando no rio subterrâneo que existe lá dentro. Por que fazer isso? Porque isso os impede de sair, cara. Mantém-nos lá embaixo e eu aqui em cima. Foram Lennon e McCartney que disseram que tudo o que você precisa é de amor, e concordo com isso. Desde que você mantenha os crocodilos bem alimentados”.
Bem-vindos à coluna A Hora do Espanto, onde a cada quinze dias daremos nosso passeio noturno pelo cemitério para alimentar os crocodilos. Abordaremos os filmes de terror bons, maus e feios, os exemplarestrash e os mais artísticos (sim, porque o terror pode ser uma arte), os ícones do gênero e suas diferentes vertentes. Pegue sua lanterna e não fique muito para trás…